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15 de março de 2017

Antropofagia emocional

Uma verdade precisa ser contada: ontem chorei enquanto comia um biscoito. Não foi pelo biscoito, mas pela lembrança que ele me trazia. Lembrei do último biscoito compartilhado com o meu avô. Ele, que sofria de Alzheimer, na última vez em que esteve na cidade, insistiu para que dividisse o biscoito com ele, mesmo estando há mais de oito horas sem comer por conta de um exame que havia realizado. "Coma, minha filha! Aqui tem pra nós dois." - ele disse. E assim nós compartilhamos um pacote pequeno de biscoito salgado. Na verdade, compartilhamos mais, muito mais. E eu nem desconfiava que depois, quando já não haveria mais o gosto salgado do biscoito na minha boca, a vida ficaria amarga de repente. 

Depois da lembrança, voltei a comer o biscoito. Já não era mais fome, não era mais carboidrato que eu botava pra dentro de mim, mas em cada pedaço que mastigava, deglutia lembranças nossas. E chorei novamente. Um choro discreto, sem tensão facial, sem nariz escorrendo, apenas lágrimas que deslizavam sobre a face. O irônico é que muitas vezes fui invadida por lembranças semelhantes enquanto olhava fotografias em casa, sozinha, mas não chorava, apesar de estar triste. Porém, naquele momento, em meio à tantas pessoas desconhecidas, foi impossível conter o choro. Talvez por me dar conta de que, embora o mundo seja repleto de gente, jamais vou poder dividir um biscoito com meu avô novamente.

O biscoito acabou. A saudade... Ah, essa criou raízes!

6 de março de 2017

À espera do extraordinário

Sabe, camarada, se eu tivesse uma poupança ou mesmo um emprego bem remunerado, hoje seria aquele momento decisivo (como li por aí) em que largaria tudo por aqui e mudaria de país, levando uma mala e o meu amor; ou pelo menos daria o pontapé inicial nos planos de reservar o meu salário para uma viagem prolongada, em breve, no caso da segunda opção de vida ser a verdadeira. Mas não é. Tampouco a primeira. A  verdade mesmo é que nem tenho passaporte e de idioma estrangeiro, só entendo o básico de espanhol, ainda assim, desenvolvendo-me melhor na escrita e na escuta. Então veja o que seria: muda em terras estrangeiras. Sobre o emprego, o que posso dizer, com certa felicidade até, é que, em tempos de recessão econômica no país, eu o tenho. O salário é vergonhoso, mas com ele consigo comprar uma fatia de torta na doceria próxima à da casa dos meus pais, que por sinal, é onde vivo.

Mas enfim, estou adiando o assunto principal desta prosa. Hoje, enquanto esperava o fim do expediente, desconfortavelmente sentada em uma cadeira de escritório - embora não trabalhe em um - mal ajustada à minha (e a de qualquer pessoa, eu diria) anatomia, pensava sobre o meu extraordinário. O extraordinário  é equivalente ao clímax dos romances, do teatro. Aquele momento em que tudo muda e nos atinge de surpresa.  Pensei que o meu extraordinário demorava a aparecer e duvidei da sua chegada. 

Na (esperada) volta pra casa, após a leitura de dois contos do Júlio Cortázar, num ônibus apinhado de gente, em um trajeto demorado, uma centelha de esperança  me atingiu discretamente. Não, não era bem esperança. Era uma ideia, um princípio de ideia, que crescia devagar entre os outros pensamentos. Talvez fosse menos que ideia e mais uma reflexão. Uma reflexão sobre a espera do extraordinário e o sentimento que a acompanhava, esmagando meu peito e me fazendo sentir vergonha de mim. Esse sentimento persistente, que impede a real contemplação da vitória de alguém próximo, recebe o nome de inveja e assume a pesada carga de ser um "pecado". Mas, no fundo, esse é um sentimento mais mal falado do que mal vivido. Digo isso porque penso que ter inveja da alegria do outro não é, necessariamente, querer roubá-la para si, mas o desejo de compartilhá-la em igual intensidade. Não desejaria subir ao pódio sozinha, deve ser solitário. Antes, queria ser feliz em conjunto. E só. E se todos os conjuntos de todo mundo fossem felizes, então talvez não houvesse tristeza, sei lá.

Mas eu falava sobre uma ideia... Ideia que veio de uma pergunta inicial: enquanto o extraordinário pessoal não vem, como lidar com o extraordinário alheio? Então, já fora do ônibus, enquanto caminhava para casa, lembrei do livro dentro da minha bolsa. Do meu livro. Do livro do Júlio Cortázar. Das suas palavras na minha cabeça. Meu, seus, nossos. Numa simples combinação de pronomes, encontrei uma resposta: o mundo não é um grande livro, nem as pessoas são como capítulos dele. Não. Talvez ele seja uma grande biblioteca e cada um de nós seja um livro à parte. Cada qual com a sua própria história e que, por ser pessoal, não requer comparação, nem a mesma velocidade de narrativa. Importa lá que eu não traga uma grande contribuição para a humanidade, como o Einstein? A humanidade é uma abstração. Eu sou real. O que de fato importa é a história do meu livro, esse que tem sido construído há cada dia. E se eu sou sua autora e principal leitora, não existe essa coisa de história desinteressante, não é mesmo?

Enfim, camarada, hoje foi mais um dia. Espero escrever mais um trecho amanhã.

26 de junho de 2014

(informal) acordo ortográfico

Quando já havia abandonado a escola, recebi (junto com outro bom tanto de brasileiros) a notícia que a nossa gramática sofreria algumas mudanças. Os esclarecidos e bem informados que me perdoem, mas firo constantemente o português por não ter me apropriado das inovações advindas com o tal do "acordo ortográfico".

O que sei é o que o senso comum multiplicou: adeus trema, adeus acento de "idéia", adeus alguns hifens... Todo o resto deixo por conta do corretor ortográfico (bendito seja!). Deveria me preocupar? Deveria me envergonhar? Deveria voltar a estudar gramática? Acho que não. Uma hora aprendo as tais regras impostas, da mesma forma que precisei aprender, desde criança, palavras como "margens plácidas", "brado retumbante", "raios fúlgidos" - aprender por repetição, sem reflexão, tais como os ratinhos e macacos de Skinner da Psicologia Behaviorista. Afinal, vivemos num país onde #todossomosmacacos, não é mesmo?

E olha ela aí, a personagem principal desse texto; que me fez expulsar esse tanto de palavras e preencher a sua cabeça, caro leitor, de fuleco fuleiragem. Estou falando da hashtag (#). Há algum tempo havia uma certa heterogeneidade de nomes pelo qual esse símbolo era chamado: jogo da velha, sustenido, fogueirinha... Hoje a hashtag é consenso (inter)nacional. Seria mais uma das façanhas do tal acordo ortográfico? Não sei. Mas o fato é que ela veio pra ficar.

Se você, como eu, tinha dúvidas sobre pontuação (quando usar vírgulas? quando não usá-las? e o ponto e vírgula?), não tema! A danada da hashtag é a solução. Basta colocá-la à frente de qualquer palavra ou frase e todos perceberão a ênfase que você quis dar, a sua possível ironia, os diferentes substantivos a que você quer se referir... Parece que as suas vantagens não tem fim.

Depois de uma overdose de #meusaojoaofoichuchubeleza não podia deixar de me render às maravilhas dessa nova aquisição da língua portuguesa (virtual).

#ironiasodeleve

22 de maio de 2014

Viver = (p.o.s.s.i.b.i.l.i.d.a.d.e.s)²

Há quem tenha medo de precipício. Chegar na beirinha e olhar pra baixo? Cruzes! Dá vertigem! Tem gente que passa a vida inteira mantendo distância das alturas, numa segurança que é mais ilusão. Outros nasceram para viver na corda bamba; para estes é a incerteza do mundo sob seus pés que lhes faz seguir adiante. Eu diria que não há uma fórmula pronta que nos diga como levar a vida. O mundo, a vida, são p.o.s.s.i.b.i.l.i.d.a.d.e.s. É na tensão entre as certezas acumuladas e a vontade de arriscar, que damos cada passo, cada salto e continuamos a nossa caminhada. Agradeço pelos precipícios que surgiram à minha frente, e às pessoas que me empurraram dele, não para que eu caísse no abismo, mas para que eu pudesse sentir o gosto das boas surpresas e não tivesse medo de arriscar. Ser feliz é o único denominador comum dessa "fórmula da vida" que nunca será descoberta. Por isso, entregue-se aos precipícios, às incertezas, às surpresas e sobretudo, à felicidade.

6 de maio de 2014

Copa do mundo, roupas íntimas e algo mais...

Estamos às vésperas da Copa, aquele evento mundial que reúne países de todos os continentes e torna todo mundo ufanista. Nessa época vestimos verde e amarelo da roupa íntima até o elástico do cabelo; enchemos o prato com milho e ervilha porque "dá um colorido bonito"; as manicures aprendem a fazer bandeiras e o país inteiro diz em alto e bom som: sou Brasileiro. Com letra maiúscula e tudo mais, porque temos o melhor futebol do mundo, o sistema de votação mais moderno, uma biodiversidade invejável, um clima agradável e uma série de adjetivos que fazemos questão de exaltar nessa época.

O problema está no "nessa época". Quando a Copa acaba, sendo o Brasil campeão ou não, o nosso orgulho vai embora. Brasil volta a ser sinônimo de subdesenvolvimento. E já que estamos em um país de terceiro mundo , por que não tolerar a fome, a corrupção intrínseca na política, o desmatamento, a poluição, o esgotamento - por uso indiscriminado - dos nossos recursos naturais? Causamos problemas, escondemos problemas, somatizamos os problemas... Tentar resolver para quê? O Brasil não tem jeito!

Esquecemos que um país vai além dos seus limites territoriais. O principal elemento formador de uma nação é o seu povo. O povo é responsável pelas causas e consequências. Porém, para nos livrarmos da culpa, apontamos os erros e os aceitamos como se fossem imutáveis. Mas não são. Eu, você, todos nós, sendo jovens ou velhos, somos o passado, o presente e o futuro do Brasil. Cabe à nós valorizar o que chamamos de pátria.

A Copa vai acabar, alguém será vencedor. Que seja o Brasil! Torcemos para isso. Mas não deixemos o espírito nacionalista ir embora com o evento. Devemos transformar o orgulho em ações que justifiquem ainda mais o nosso amor à terra natal.

4 de abril de 2014

A Nova Velha Idade das Trevas

Desde a invenção e futura popularização da internet "as informações do mundo todo estão ao alcance de um clique". Esta é a era da Globalização (com letra maiúscula, tamanho a sua importância!). Claro que o acesso ao boom de notícias depende do tamanho do seu "braço". Se de repente você tiver dado o azar de nascer com uma limitação de comprimento do membro superior, é bem provável que não esteja lendo esse texto. Porque nesta sociedade alguns têm "braços" e outros não, as informações não chegam à todos. Ter "braço" realmente faz a diferença.

E se estamos falando de informações, por que não falar sobre a produção científica na atualidade? Felizmente a Idade Média ficou pra trás e desde o movimento Iluminista a educação deixou de ser um bem restrito a uma classe de privilegiados, não é mesmo? Hoje podemos desfrutar do prazer de ler e produzir conhecimento quando desejarmos. Quer dizer, quando a Ciência deixar. Quer dizer, quando os cientistas deixarem. Quer dizer, quando as ditas autoridades deixarem. Quer dizer, quando o tal do sistema deixar... Sobram notícias e falta-se tempo para lê-las, refletir sobre e empregá-las. Cadê o tempo para debruçar-se sobre algum assunto de seu real interesse? O capitalismo comeu.

Dentro das universidades a nova ordem social grita "absorva, produza, publique o máximo que puder!" E muitos dos que se intitulam estudantes são meros alunos, ledores de capítulos soltos, artigos produzidos às pressas, com o bafo do sistema no cangote. Claro que tem algumas pessoas que acompanham a correnteza da produção científica e irrigam, de verdade, muitos solos da sociedade, fazendo crescer bons frutos. Mas há também os que estejam boiando no rio, deixando-se levar, confiando que, ao final da trajetória, seus "braços" darão conta do recado.

Queria uma universidade com mais folhas em branco e menos textos obrigatórios, com mais tempo para a biblioteca do que carga horária obrigatória. Queria realmente não ter que construir um Trabalho de Conclusão de Curso, mas sim um Trabalho de Construção da Sociedade.

8 de junho de 2011

Dia dos namorados ou Lembranças Infantis


Dizem, em alguns cantos do mundo, que hoje é um dia especial, dia de São Valentim, dia dos Namorados. Que coisa mais boba! E eu que hoje passei o dia inteiro pensando em um passado tão recente e tão tênue, e em um futuro utópico, me encaixo perfeitamente na descrição de "boba". Fernando Pessoa acertou em cheio quando se referiu às cartas de amor como ridículas. Mas acho que faltou um complemento: as cartas de paixão são igualmente ridículas. Aliás, considero sensato dizer que não só as cartas, mas tudo aquilo que está ligado a esse sentimento avassalador que nos toma vez-ou-outra-quase-sempre, é realmente ridículo.


Pode não ser importante o sorriso bobo estampado em mim mais cedo e mesmo agora. Podem não ser importantes as sensações presentes em um corpo quase feliz de tanto sonhar. Não importa o que virá quando a música acabar e todos tiverem ido dormir. Não importa que eu seja a idiota alegre na fila do supermercado. No final, sou só eu que saio ganhando, mesmo depois de perder.


Escutem bem, senhores, a voz dessa que vos fala, com o coração abarrotado de declarações, filmes com o Aston Kutcher, poesias e músicas cheias de um romantismo bem elaborado. Escutem quando ela diz que apaixonar-se é quase a mesma coisa que atirar-se, de uma só vez, em uma piscina de bolinhas. Pode ser maravilhoso, pode trazer lembranças ótimas, pode dar um colorido especial a dias tristes, pode ser uma grande chance para a alegria. Pode ser tudo isso, mas em algum momento você pode sentir-se sufocado ou alguém, por descuido, pode acabar pisando em você. Não sei quanto tempo faz que vocês passaram por essa experiência infantil, mas com certeza devem lembra-se: vale muito a pena! Amar, apaixonar-se, dar uma chance para o cupido, vale todas as dores. Quem realmente sofre é aquele que não se deu essa oportunidade, e que, portanto, ainda não estreou na vida. Sejamos, pois, felizes em carregar, estampado como manchete, o título que nos cabe: R-I-D-Í-C-U-L-O-S!