Acabei de passar um café. Espero que não demore ou vai esfriar. Espero que traga aquele biscoito que gostamos de dividir. Gostávamos. Desculpe. Ainda acho que você vai chegar. Ainda olho nossas fotos. Ainda escuto as mesmas músicas. E o meu cabelo ainda se transforma numa confusão de nós quando o lavo. Mas você já não está aqui, reclamando da quantidade de fios caídos no chão, enquanto segura algumas mexas e me ajuda a desembaraçá-lo. Você não está aqui. Mas acabou de chegar. Tocou a campainha, como o visitante que se tornou, eu abri a porta , como a moradora ansiosa à espera do eterno hóspede. Te cumprimentei com um abraço rápido, 2 segundos talvez. 2 segundos. Reparei que usou condicionador, estava sem pulseiras, retirou o brinco, esqueceu de passar a gola da camisa (como sempre) e continua a usar o mesmo perfume. Como disse, 2 segundos. Você trouxe os biscoitos e também uma barra de chocolate; quem sabe para me lembrar de que as coisas já não são exatamente como antes. Em todo o caso, te convidei para sentar no sofá, enquanto pegava o café e as canecas. Mas você levantou e foi à cozinha, abriu o armário sem que eu precisasse dizer onde ficavam as canecas; quem sabe para me lembrar de que algumas coisas não mudaram tanto. Até você partir, terei escrito um livro de teorias criadas a partir da minha interpretação do seu comportamento. Talvez sejam teorias falsas, mas mentiras não são novidade no mercado editorial. E eu estou divagando sobre tantas besteiras na tentativa de conter um outro pensamento, mas ele é maior ou talvez eu realmente queira pensar nisso: já pude olhar de perto esse sinal minúsculo que você tem abaixo do lábio inferior, do lado esquerdo. Tanta coisa pra lembrar e eu estou pensado em algo tão insignificante. Um sinal. Minúsculo. Na sua boca. Um silêncio repentino. Não estava escutando o que você dizia, por isso fiquei calada. Eu achava que o silêncio era um perigo, mas perigoso mesmo são os gritos na minha cabeça. Na vida do lado de fora dos meus pensamentos, sirvo o café, uso 2 colheres de açúcar no meu e você ri, relembrando as nossas discussões sobre a importância de saborear o café puro. Eu sorrio de volta e nos sentamos no mesmo sofá. Trocamos novidades, dividimos os problemas e mais uma vez, compartilhamos o silêncio. Mas agora a chuva começou a cair lá fora e temos uma distração. O barulho de chuva forte ocupa o espaço entre nós por algum tempo e, como esqueci de contar os turnos da conversa, já não sei de quem é a vez de falar. Você começa, sugerindo que a gente divida o chocolate. Muito gostoso, por sinal. Então você diz que está na hora de voltar pra casa. Prometemos nos encontrar lá da próxima vez. Peço que me avise ao chegar, abro a porta, você me abraça mais uma vez, um pouco mais demorado. É isso. Você foi embora. Recolho as canecas sujas para levá-las à pia e... Na cozinha, um embrulho em cima da geladeira: uma caixa com biscoitos e o bilhete: "Para você ter uma dose extra de açúcar acompanhando o café". No fim, ainda são os nossos biscoitos. No fim, talvez ainda sejamos nós dois.
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
17 de maio de 2017
18 de fevereiro de 2015
Impropério
Ela vai chegar com aquela boca vermelha que tanto amo. Porra de batom! Tira toda minha lucidez. Se quer saber, querida, perco o ar ao te ver abrir e fechar a boca. Cada palavra que sai de você envolve o meu cérebro e o transforma em merda. Você e o seu abre e fecha de boca. Abre e fecha. Abre e fecha. Abre e fecha...e me captura. Como um animalzinho, me perco dentro de você. Me perco em suas curvas. Você parece uma estrada sinuosa, com morros que me prendem a atenção e me deixam mais perto das nuvens. Em você eu viro rio em segundos. E eu sei que você odeia a rapidez com que me transponho, mas não consegue entender,querida? Você carrega algum encantamento, de modo que é impossível habitar o seu corpo, por algum tempo, sem se deixar levar. Não prometo que farei o possível para encontrar uma poção que te livre do encantamento, porque você sabe muito bem da minha vocação para vilão. Desculpe, mas terei que parar com os devaneios, porque você se aproxima.
Beijo-a com avidez e o rio começa a correr dentro de mim.
Você pensa que sou uma dessas garotas que come depois da aula. Sim, eu sei sobre elas. Até imagino você e o seu ego crescendo e o seu gozo solitário acabando dentro de segundos. E as garotas sem tempo de dizer “Oh, baby, I need...” E a necessidade, interrompida, fica contida nelas mesmas. Mas minha relação com você é de outra natureza. Eu não perco o assunto da aula por me concentrar nos seus lábios. Eu não me arrumo especialmente pra você. Eu gosto de quem sou e de como sou e é sorte sua gostar também do meu sutiã rendado, do meu batom vermelho, das minhas curvas naturais. É muita sorte tua que eu deixe você me percorrer “sem pagar pedágio”. E essas aspas são só pra dizer que você paga, sim. Mesmo sem saber. O calor da sua língua em mim vale muito. Os seus beijos infinitos valem muito mais.
- Não, não apague a luz! Não preciso da escuridão, quero-te com toda certeza.
O seu vestido e a minha camisa estão fundidos no chão. Sua calcinha já nem sei qual é a cor. Preta? Roxa? Vermelha? Prateada? Não importa. Querida, você é feita de todas as cores do mundo e eu sou, ao mesmo tempo, o artista que te possui e o admirador que te contempla. Essa luz de fim de tarde, filtrada pelas cortinas, paira sobre o seu corpo nu e tenho certeza que o mundo foi estrategicamente planejado para fazer de ti um espetáculo iluminado. Aqui, deitado entre o nosso suor, com a sua cabeça apoiada no meu peito e a sua respiração me fazendo cócegas, amo-a silenciosamente. Ainda que não saibas.
E ela sorri enquanto dorme, sem saber se sonha ou se a vida finalmente resolveu ficar melhor.
Fronteira
Era inacreditável tê-la nos braços. O toque da sua blusa de seda na minha pele, o toque das suas mãos tirando os meus botões das suas casas e, ao mesmo tempo, dando abrigo ao meu coração... A sua boca é tão macia que imagino a minha língua como um avião, entrecortando nuvens, perdendo-se no infinito.
Eu nem consigo descrever as sensações que o corpo dele causa no meu. Quando me toca, tudo se modifica e o mundo além de nós dois não existe mais. Ter o seu rosto entre as mãos e poder olhar cada detalhe seu, demoradamente, é como escalar a montanha mais alta do mundo e ter a glória de olhar sozinha tudo lá embaixo. Mesmo que eu não esteja sempre olhando de cima.
Acho uma graça como o seu cabelo vai ficando mais fininho perto da nuca e como ela me toca demoradamente, como se cada marca no meu rosto fosse preciosa. Absolutamente, amo o seu sorriso tímido e confiante, que só eu posso ver, de quando faz algo pouco convencional na tentativa de me dar mais prazer. E ela sempre consegue.
Amo quando lhe falta ar e forças para fazer algo além de uma hesitação. Significa que a minha tentativa foi bem sucedida.
- Achei o meu lugar! – disseram juntos.
(parece inacabado, mas certas coisas não deveriam ter fim)
25 de julho de 2014
De feira
Em uma manhã pouco convidativa, Ana decidiu ir à feira. Gostava do colorido do ambiente, do cheiro de podridão e suor. Isso era estar vivo. Há anos sentia que algo havia morrido dentro de si e o passar do tempo só fazia com que sentisse o desgaste chegar sem aviso.
Olhava-se no espelho sem se ver, mas isso não era incomum; desde que o conhecera passara a ver seu rosto em cada rosto com que cruzava, mesmo no seu próprio. Seus olhos cítricos a perseguiam, seus cachos insistiam em emaranhar-se nos seus dedos, em pensamento, e ela acreditava que os seus beijos criaram um estoque infinito de calor, suficiente para mantê-la viva.
Vida... Sangue... Vermelho... Precisava comprar maçãs!
Como era uma fruta comum, estava presente em quase todas as barracas. Escolheu aquela onde o movimento era menor e cujo dono, provavelmente, receberia menos dinheiro ao final do dia. Após escolher as mais vermelhas, decidiu que era hora de voltar pra casa.
Já não reconhecia aquele lugar como um lar, apenas como reduto físico das suas lembranças. Diziam que ela precisava sair dali, mas há muito deixara de escutar conselhos. Perdera seu lugar no mundo, que era ao lado dele, por isso não gostaria que suas memórias também ficassem sem abrigo. Diferente do que achavam, Ana persistiu em viver apesar do pesar. E foi por causa dessa mesma insistência que a paixão por ele crescera tal como erva daninha, sem cuidado, sem adubo.
Importava lá que o solo dele tivesse florescido para outra pessoa colher? Eles se amavam sem formalidades, sem burocracia. Porém, aos poucos, Ana passou a desejar um jardim só para si. Estava cansada dos dias preenchidos e das noites vazias. Cansou do amor preso nas paredes do seu quarto. Cansou do brilho no anelar da mão esquerda dele. O único problema é que não cansara dele. Desejava-o a cada segundo acordada. Sonhava com ele todas as noites.
Enquanto o desejo crescia, algo dentro dela crescia sem que se desse conta. Três meses depois era impossível não ver a vida que se formava dentro da sua vida. Era o primeiro filho dela e o terceiro dele. Mas não houve momento para decepção ou acolhimento. Ele se foi. Nunca descobrira o seu destino. Nem mesmo o pedaço dele que guardava com amor, vingou. Talvez não tivesse passado de um sonho.
Mordeu uma maçã e sentiu o sumo escorrer pelo pescoço. Sim, estava viva e tudo era real!
1 de maio de 2014
Pontos de vista
Olho no olho levava a vida. Observava as pessoas que passavam por ela sem mencionar uma palavra, inventava capítulos para cada uma, escrevia histórias que nunca existiram e se apegava à memórias de ilusões. Era boa a vida na sua cabeça. Como um autômato, cumpria as tarefas do cotidiano. E cumpria mesmo; como quem faz o que não lhe convém. Distribuía sorrisos tímidos para os seus personagens que, sem saber da sua existência naquela mente, não davam nada em troca. E a cada dia, nos momentos mais impróprios, era assaltada por ideias e rostos que se entrelaçavam, formando uma teia de mentiras absolutas, tão materiais quanto a existência daquela que as criava. Sim, era etérea a sua existência! Talvez um dia encontrasse outro gás, capaz de se emaranhar nas suas teias, desfazendo nós e criando nós: eu e você ou ele e ela. Isso é uma questão de ponto de vista!
31 de agosto de 2012
Submersa
Quantas lembranças tuas ainda me restam? Quantas mais terei que inventar?
Entrou no lago com um pouco de medo. A água estava quente, mas tudo parecia escuro, ela sequer conseguia enxergar os próprios pés. Contou até três e mergulhou de cabeça. Fechou os olhos e nadou depressa, sem direção. Ao parar, estava ofegante e o seu coração disparava como quando se aproximava da esquina, ao encontro dele. O vento soprava forte e carregava flores murchas para a água. Nadou até elas e arrancou-lhes as pétalas. Uma por uma. Ainda carregavam o perfume da vida. Doce perfume, misturado com o odor da podridão, característico das coisas não vivas. Seria esse o cheiro do seu encontro agora, se pudessem fazê-lo? Sua memória olfativa ainda preservava o cheiro daqueles preciosos momentos: o perfume amadeirado dele, espalhado por lugares estratégicos do corpo, junto com o seu próprio cheiro de sabonete. Jamais seria capaz de sentir aquele perfume, tão popular, sem um sorriso discreto. Então não resistiu: comeu uma flor. Por um tempo sentiu seu gosto doce e depois o amargor típico das coisas que não devem ser comidas. Depois deitou delicadamente sobre a água e boiou olhando para o céu de fim de tarde. Quantas vezes prendeu a respiração na sua presença para que pudesse flutuar sem afundar ao ouvir seu riso! Era lindo ver o céu tingido de rosa, laranja e violeta! Coisa divina essa. Divina como o seu nome, que dizem caracterizar pessoas positivas, otimistas e com grande capacidade de liderança. Não era muito dada a acreditar nessas coisas, mas nunca conhecera alguém com tanta certeza de que o seu futuro seria bom, e nunca ninguém tivera tanta capacidade de persuadi-la a fazer coisas que a assustavam, quase liderando uma revolução na sua própria existência. Aprendera a nadar na infância, sem muitas dificuldades. Nunca achou que nadasse bem até ser a única menina a completar o desafio de nadar da praia ao barco, numa viagem de escola. Aprendera a beijar relativamente tarde, aos 15 anos. Sempre achara que beijava bem até beijá-lo pela segunda, terceira, centésima vez. Nenhum beijo, antes ou depois daqueles, seria suficiente. Alguém acariciaria sua mão e a apertaria forte entre faltas de ar e contatos corpo a corpo, boca a boca? Já começara a escurecer e fazer frio fora da água. Daquela água escura, que mantinha afastada de si as pessoas sem coragem. Mas entrava nela sem medo, simplesmente porque não esperava nada. Deu um último mergulho de corpo inteiro e de repente entendeu: era ele! Aquele lago era ele! Nada cristalino.
Assinar:
Postagens (Atom)