15 de março de 2017

"QUANDO NIETZSCHE CHOROU"


Sobre este livro, meu primeiro conselho é: cuidado. Não é recomendado que você se atire de cabeça à esta leitura sem conferir previamente sua sinopse, pois você deve saber, a priori, que trata-se de um romance que mistura, brilhantemente, realidade e ficção, de modo que a um leitor leigo no assunto (o surgimento da "cura através da palavra", ou da futuramente conhecida "Psicanálise") seja difícil diferenciar os fatos reais e ficcionais. 

Irvin D. Yalom explora lindamente a liberdade poética da criação literária ao nos apresentar em 402 páginas (descontando a sessão de "Nota do autor") uma história sobre angústias e crises existenciais de dois grandes nomes da Medicina e Filosofia: Josef Breuer e Friedrich Nietzsche, respectivamente. Ainda outro personagem de importância histórica comparece na trama, de maneira discreta: o ainda jovem estudante de medicina, Sigmund Freud.

Em diálogos perturbadores entre as personagens, o autor nos faz refletir sobre questões profundas como o medo, a doença,  o envelhecimento, a morte, o amor, o desejo e o sentido da vida. As angústias compartilhadas por Breuer e Nietzsche talvez não sejam subjugadas pelo tempo, nem habitem, exclusivamente a cabeça dessas pessoas, mas são compartilhadas por muitos de nós, mesmo agora ou depois.

Temo não conseguir resumir as impressões deixadas pela obra. Penso que talvez fosse um pecado incorrer à tal tentativa. A força das palavras do autor, emprestadas aos atores da história, merecem ser apreciadas tal como foram de fato apresentadas, por isso, não me estenderei nos comentários e finalizo esse texto deixando a obra falar por si mesma, tomando a liberdade de unir dois momentos distintos da narrativa, por achar que se complementam : 

Nas páginas 329 e 330:

- Eis a minha lição para você (Josef): Morra no momento certo! (...) Viva enquanto viver!
- (...) O que isso significa? - perguntou Breuer (...).
- Pergunte a si mesmo, Josef: Você consumiu sua vida? (...) Você viveu sua vida? Ou foi vivido por ela? Escolheu-a? Ou ela escolheu você? Amou-a? Ou a lamentou? Você a esgotou? 

Na página 375:

- (...) Graças a você (Nietzsche), percebo que a chave para viver bem é primeiro desejar aquilo que é necessário e, depois, amar aquilo que é desejado.
- (...) Amor fati, ama teu destino!


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Dados da obra

Título: Quando Nietzsche Chorou
Título original: When Nietzsche wept
Autor: Irvin D. Yalom
Editora: Ediouro

Ano de publicação: 2005

Antropofagia emocional

Uma verdade precisa ser contada: ontem chorei enquanto comia um biscoito. Não foi pelo biscoito, mas pela lembrança que ele me trazia. Lembrei do último biscoito compartilhado com o meu avô. Ele, que sofria de Alzheimer, na última vez em que esteve na cidade, insistiu para que dividisse o biscoito com ele, mesmo estando há mais de oito horas sem comer por conta de um exame que havia realizado. "Coma, minha filha! Aqui tem pra nós dois." - ele disse. E assim nós compartilhamos um pacote pequeno de biscoito salgado. Na verdade, compartilhamos mais, muito mais. E eu nem desconfiava que depois, quando já não haveria mais o gosto salgado do biscoito na minha boca, a vida ficaria amarga de repente. 

Depois da lembrança, voltei a comer o biscoito. Já não era mais fome, não era mais carboidrato que eu botava pra dentro de mim, mas em cada pedaço que mastigava, deglutia lembranças nossas. E chorei novamente. Um choro discreto, sem tensão facial, sem nariz escorrendo, apenas lágrimas que deslizavam sobre a face. O irônico é que muitas vezes fui invadida por lembranças semelhantes enquanto olhava fotografias em casa, sozinha, mas não chorava, apesar de estar triste. Porém, naquele momento, em meio à tantas pessoas desconhecidas, foi impossível conter o choro. Talvez por me dar conta de que, embora o mundo seja repleto de gente, jamais vou poder dividir um biscoito com meu avô novamente.

O biscoito acabou. A saudade... Ah, essa criou raízes!

6 de março de 2017

À espera do extraordinário

Sabe, camarada, se eu tivesse uma poupança ou mesmo um emprego bem remunerado, hoje seria aquele momento decisivo (como li por aí) em que largaria tudo por aqui e mudaria de país, levando uma mala e o meu amor; ou pelo menos daria o pontapé inicial nos planos de reservar o meu salário para uma viagem prolongada, em breve, no caso da segunda opção de vida ser a verdadeira. Mas não é. Tampouco a primeira. A  verdade mesmo é que nem tenho passaporte e de idioma estrangeiro, só entendo o básico de espanhol, ainda assim, desenvolvendo-me melhor na escrita e na escuta. Então veja o que seria: muda em terras estrangeiras. Sobre o emprego, o que posso dizer, com certa felicidade até, é que, em tempos de recessão econômica no país, eu o tenho. O salário é vergonhoso, mas com ele consigo comprar uma fatia de torta na doceria próxima à da casa dos meus pais, que por sinal, é onde vivo.

Mas enfim, estou adiando o assunto principal desta prosa. Hoje, enquanto esperava o fim do expediente, desconfortavelmente sentada em uma cadeira de escritório - embora não trabalhe em um - mal ajustada à minha (e a de qualquer pessoa, eu diria) anatomia, pensava sobre o meu extraordinário. O extraordinário  é equivalente ao clímax dos romances, do teatro. Aquele momento em que tudo muda e nos atinge de surpresa.  Pensei que o meu extraordinário demorava a aparecer e duvidei da sua chegada. 

Na (esperada) volta pra casa, após a leitura de dois contos do Júlio Cortázar, num ônibus apinhado de gente, em um trajeto demorado, uma centelha de esperança  me atingiu discretamente. Não, não era bem esperança. Era uma ideia, um princípio de ideia, que crescia devagar entre os outros pensamentos. Talvez fosse menos que ideia e mais uma reflexão. Uma reflexão sobre a espera do extraordinário e o sentimento que a acompanhava, esmagando meu peito e me fazendo sentir vergonha de mim. Esse sentimento persistente, que impede a real contemplação da vitória de alguém próximo, recebe o nome de inveja e assume a pesada carga de ser um "pecado". Mas, no fundo, esse é um sentimento mais mal falado do que mal vivido. Digo isso porque penso que ter inveja da alegria do outro não é, necessariamente, querer roubá-la para si, mas o desejo de compartilhá-la em igual intensidade. Não desejaria subir ao pódio sozinha, deve ser solitário. Antes, queria ser feliz em conjunto. E só. E se todos os conjuntos de todo mundo fossem felizes, então talvez não houvesse tristeza, sei lá.

Mas eu falava sobre uma ideia... Ideia que veio de uma pergunta inicial: enquanto o extraordinário pessoal não vem, como lidar com o extraordinário alheio? Então, já fora do ônibus, enquanto caminhava para casa, lembrei do livro dentro da minha bolsa. Do meu livro. Do livro do Júlio Cortázar. Das suas palavras na minha cabeça. Meu, seus, nossos. Numa simples combinação de pronomes, encontrei uma resposta: o mundo não é um grande livro, nem as pessoas são como capítulos dele. Não. Talvez ele seja uma grande biblioteca e cada um de nós seja um livro à parte. Cada qual com a sua própria história e que, por ser pessoal, não requer comparação, nem a mesma velocidade de narrativa. Importa lá que eu não traga uma grande contribuição para a humanidade, como o Einstein? A humanidade é uma abstração. Eu sou real. O que de fato importa é a história do meu livro, esse que tem sido construído há cada dia. E se eu sou sua autora e principal leitora, não existe essa coisa de história desinteressante, não é mesmo?

Enfim, camarada, hoje foi mais um dia. Espero escrever mais um trecho amanhã.